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Em comparação com municípios da microrregião, Veranópolis possui o menor índice de mulheres eleitas vereadoras na história

As eleições 2020 foram uma surpresa positiva. Nos municípios da microrregião de Veranópolis houve aumento no número de mulheres eleitas vereadoras. Na cidade veranense, por exemplo, pela primeira vez na história três mulheres foram eleitas no mesmo pleito.

Apesar do fato ser uma boa notícia, que demonstra o avanço da mulher na esfera pública, os índices de pessoas do sexo feminino que ocuparam cargos no legislativo municipal, historicamente, é baixo. Veranópolis, ao ser comparada às cidades de Fagundes Varela, Cotiporã e Vila Flores possui o menor percentual de mulheres eleitas, mesmo sendo a maior cidade da microrregião e com mais anos de existência. Ao que se deve esses indicadores? A partir dos números, é importante refletir.

Veranópolis: apenas cinco mulheres estiveram ocupando uma das cadeiras do legislativo municipal até 2020

Veranópolis tornou-se um município em 1898, na época chamado de Alfredo Chaves. Contudo, apenas em 1936 a Câmara Municipal de Vereadores foi criada – antes havia um Conselho Municipal, que também possuía a incumbência de legislar. Assim, os registros presentes nesta reportagem começam a partir dessa data.

Ao longo da história, 174 vagas no legislativo foram abertas até o pleito de 2017. Dessas, 121 pessoas conseguiram a sua cadeira, sendo algumas eleitas mais de uma vez. De todas as pessoas, cinco foram mulheres, fato que representa apenas 4,13%. Os homens, em contrapartida, tiveram 117 representações, fato que se converte em 96,69% dos assentos. Além disso, na história recente, nenhuma mulher foi sequer candidata a prefeita ou vice-prefeita no município.

Gráfico que demonstra o número de eleitos em cada governo para a Câmara Municipal de Veranópolis e o contexto histórico de cada mandato | gráfico: Canvas

A disparidade é nítida e choca, porque, em 74 anos de governos (excluindo-se os 10 anos do Estado Novo em que não houveram eleições), apenas cinco pessoas do sexo feminino tiveram a confiança da população para estar na vereança. Todavia, a coragem dessas mulheres deve ser ressaltada e suas personalidades também.

Zenaide Maria Boff (ARENA) foi a primeira mulher eleita vereadora na Terra da Longevidade. O fato aconteceu em 1973, em plena ditadura militar. Assim, marcada por uma personalidade forte, quebrou barreiras. Professora, também foi dirigente do Veranópolis Esporte Clube Recreativo e Cultural. Dona de poucas palavras, era respeitada por todos. O jornalista Nilo Dias, que pesquisou sua história, a descreve da seguinte forma, “alta, cabelos curtos […] voz grave, solteira (ela dizia que “graças a Deus”), era conhecida na cidade como uma mulher ativa”. E realmente era. Presidiu a câmara uma vez em seu mandato.

Zenaide Maria Boff | foto: Revista Placar, década de 1970

Todas as demais vereadoras que a seguiram, ademais, foram do PMDB: Izabel Cristina Simonato (2001-2004); Elizabeth Schimitz Farina (2005-2008); Alice Peruffo (2009-2016) e Mara Garib Guzzo (2017-2020). Suas histórias são relevantes, mulheres que se colocaram à disposição, conseguiram seu espaço e, até hoje, lutam pelos seus direitos. Além delas, outras duas mulheres ­ Adriane Parise (MDB) e Maria Gregol (MDB) ­ foram eleitas no pleito de 2020 e se tornarão vereadoras em 2021.

Observando a microrregião: os percentuais evoluíram, mas ainda não são suficientes

Dados obtidos junto às Câmaras de Vereadores de Veranópolis, Vila Flores, Cotiporã e Fagundes Varela demonstram nominatas completas dos legisladores ao longo da história, listas essas em que o número elevado de homens ofusca os nomes das mulheres.

Em um cálculo feito diante dos dados, observa-se que, dos quatro municípios, Vila Flores possui o maior percentual de mulheres eleitas: 14,89% em detrimento de 85,11% de homens. Na sequência está Cotiporã, com 10,71% de pessoas do sexo feminino, cidade seguida de Fagundes Varela, com 10%. É importante destacar que a cidade é o único município da microrregião que já teve uma mulher prefeita e que foi duas vezes vice.

Veranópolis, todavia, encontra-se na “lanterna”, com apenas 4,13% de vereadoras, se comparado ao número de homens que já passaram pelo legislativo. A disparidade apresenta-se ainda mais nítida se levado em conta o número de anos de existência da cidade e de habitantes. Fagundes, Vila e Cotiporã eram pertencentes a Veranópolis, quando se emanciparam em, respectivamente, 1987, 1988 e 1982. Assim, em média, são 34 anos de história contra 74 anos de Câmara, fato que daria maior “oportunidade” ao município veranense para expandir seus indicadores.

Além disso, para equilibrar a comparação, mesmo que observados os dados a partir de 1988 (última cidade emancipada) até 2020, os veranenses seguem em desvantagem se observado o percentual de mulheres eleitas em relação ao percentual de homens.

Número de eleitos em cada município durante a história | gráfico: Canvas

Outro indicador que agrega nesse aspecto são os habitantes. Segundo dados do censo de 2010, presentes no site do IBGE, Veranópolis possui 22.810 habitantes e os demais municípios, em média simples, cerca de 3.234. Além disso, dados presentes no site da Prefeitura da Terra da Longevidade, referentes também ao censo de 2010, apontam que 48,7% dos habitantes são do sexo masculino e 51,3% do feminino. Mais habitantes, mais mulheres concorrendo, mais mulheres poderiam ter sido eleitas. Em uma lógica simples, se todas mulheres votassem em pessoas do sexo feminino, haveria maior representação na câmara.

Mas afinal, por que elas ainda são minoria?

Primeiramente, deve-se observar que muito já foi conquistado. As mulheres, que puderam começar efetivamente a votar no Brasil em 1932, tiveram diversas conquistas ao longo do tempo. Em Veranópolis não foi diferente. Por mais que a discrepância seja grande, deve-se considerar o aumento das mulheres na esfera pública. Nas eleições 2020, as quais não foram contabilizadas na análise anterior pois nela foi levado em conta apenas vereadores já efetivados, cada vez mais mulheres conquistam vagas no legislativo e inclusive no executivo.

Apesar do que já foi construído, há muito chão pela frente e para que ele seja moldado, deve-se entender as causas dos obstáculos para as mulheres. A historiadora veranense Sílvia Zanella auxilia a desmistificar os dados.

Segundo ela, a principal causa refere-se à história. Após a revolução industrial, por volta do século XVIII, um conceito de esfera pública e privada foi criado. Assim, enquanto o homem encaixava-se como provedor e atuante na esfera pública a mulher era enquadrada na esfera privada, restrita a casa. Em pleno século XXI, esse conceito segue intrínseco na sociedade e impede que todos relacionem as mulheres a um cargo como prefeita e vereadora, por exemplo.

Além disso, faz pouco tempo que as mulheres podem votar. Se o voto foi permitido em 1932 e a câmara da cidade foi criada em 1936 é compreensível o fato de poucas mulheres terem ingressado na magistratura.

– É um processo. Ainda hoje, percebe-se que muitas pessoas confiam mais na figura masculina que na figura feminina para participar do espaço público – pontua a historiadora.

Essa situação, ademais, acaba por limitar, muitas vezes, políticas públicas voltadas ao gênero. A representação feminina na Câmara pode garantir maior aprovação e proposição de projetos que buscam melhorar a vida da mulher na sociedade, proporcionando maior segurança, direitos e inclusão.

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